Dédina de Souza e Eduardo Maimoni
Carmo do Rio Claro – 12/08/2026
Algumas perguntas não pedem respostas imediatas.
Pedem tempo, reflexão um novo olhar.
Aqui reunimos alguns textos autorais do Instituto IDELI – pensamentos, investigações e reflexões sobre sonhos, escolhas, consciência, relações e aquilo que pode existir por trás daquilo que vivemos.
Escolha uma leitura e continue a investigação.
A tarde chuvosa anunciava os respingos de lembranças da alma.
Era uma grande festa.
Uma linda névoa dourada encobria parte do cenário.
Como uma bruma espelhada reluzindo os raios solares.
As moças usavam vestidos delicados.
Luzes suaves.
Pessoas circulando como se tudo ali precisasse parecer perfeito.
Havia música.
Conversas.
Flores artificiais decorando o ambiente.
Os homens sentados às mesas estavam preocupados em parecer interessantes.
Cultos.
Bem trajados.
Ternos elegantemente cortados.
Mas minha atenção escapava para outras coisas.
As árvores douradas pelos raios do sol.
O vento atravessando o jardim.
A beleza silenciosa das plantas naturais no meio de uma decoração artificial cuidadosamente montada.
Enquanto as pessoas tentavam construir beleza…
a natureza simplesmente era bela.
Continuei caminhando pelo jardim.
Até que um rapaz obstruiu o caminho com uma churrasqueira.
Nossos olhos se cruzaram.
Eu continuei indo na direção de onde ele estava.
Pedi licença.
Ele respondeu:
— Não, moça. Estou trabalhando. Você vai ter que esperar.
Estranhamente, eu havia voltado para a casa dos meus pais.
Como se algo dentro de mim insistisse em retornar sempre ao mesmo ponto de origem.
Nos sentamos à mesa para jantar.
Como se o tempo nunca tivesse passado.
Como quando éramos crianças.
Mas havia algo no ar.
Uma névoa densa encobria os móveis.
Deformava os contornos da casa.
Tudo parecia distante demais para ser real.
Meus gatos estavam ali.
Mas sem as vísceras.
Uma cena impossível de nomear.
Eu corri até eles.
E, de alguma forma que minha mente ainda não explica…
eu os salvei.
O amor?
Ou a tentativa desesperada de impedir a repetição da dor?
Então eu saí atrás de quem havia feito aquilo.
E era ela.
Era uma tarde ensolarada.
Havia música.
Pessoas conversando.
E adolescentes atravessando a festa com aquela sensação silenciosa de quem ainda está tentando descobrir o próprio lugar no mundo.
Foi então que eu o vi.
O primeiro garoto de quem gostei.
Durante muito tempo ele ocupou um espaço simbólico dentro de mim.
Não exatamente por quem era.
Mas pelo que representava:
o desejo de ser vista.
Escolhida.
Reconhecida.
Mas naquela tarde algo estava diferente.
Ele já não parecia tão bonito.
Ainda assim, ele se aproximou.
Me deu um beijo tímido no rosto.
Quase como se o tempo tentasse recriar uma cena que nunca chegou a acontecer de verdade.
Mas não havia urgência emocional naquela experiência.
Pouco depois alguém perguntou se eu era médica.
Respondi:
“Sou terapeuta.”
E completei quase sem pensar:
“Minha hora é mais valiosa que a de um médico.”
As pessoas ao redor silenciaram.
Algumas pareciam curiosas.
Outras incomodadas.
E naquele instante percebi algo estranho naquelas palavras.
Havia uma casa antiga.
Daquelas com janelas amplas demais.
Abertas demais.
Como se o mundo sempre tivesse tido permissão para olhar para dentro.
Ela era minha.
Ou pelo menos parecia ser.
Eu me preparava para sair quando percebi dois homens observando pela janela.
Eles começaram a me filmar.
O mais estranho é que o desconforto não veio imediatamente.
Veio depois.
Como se algo tivesse atravessado uma linha que nunca deveria ter sido cruzada.
Era uma noite escura de inverno.
A lua não aparecia no céu.
A floresta, densa e escura, trazia uma sensação sufocante.
O espaço estreito entre as árvores parecia se fechar cada vez mais.
A gélida sensação de fuga me perseguia.
Não uma presença.
Mas uma necessidade.
Algo me perseguia.
Mas não havia rosto.
Não havia corpo.
Apenas o desamparo.
Encontrei uma abertura entre as pedras da montanha.
O medo invadiu meu peito.
Embora soubesse que talvez aquela fosse a única saída.
Entrei.
Meu pai conduzia um barco por um rio calmo e transparente.
Pelo caminho, tartarugas marinhas surgiam sob a água cristalina.
E eu me surpreendia ao vê-las ali.
Tão serenas em águas tão tranquilas.
Em determinado momento senti algo tocar meus pés.
Por um instante pensei:
“Será um jacaré?”
O vento gélido atravessava a sacada do hotel fazenda.
Os animais já se aqueciam sob os primeiros raios solares.
Eu observava a cena com leveza.
Apreciando a paisagem montanhosa iluminada pela manhã.
Dessa vez não era o mar de Minas.
Mas a princesa Poços de Caldas.
Minhas filhas giravam como pequenas estrelas sobre a grama.
Eduardo já queria o café da manhã.
Minha mãe permanecia estranhamente parada à porta.
Saímos os três adultos juntos do quarto.
No instante seguinte estávamos dentro das piscinas de águas vulcânicas.
Como se todo o resto tivesse desaparecido.
Minha mãe estava alegre.
Pela primeira vez em muito tempo.
“No meu aniversário nós vamos vir para cá.”
Uma alegria quase pueril iluminou o semblante dela.
Então ela continuou.
“Vou chamar a sua irmã para passar dois dias conosco.”
Vi em seus olhos algo que reconheci.
A necessidade de testar o vínculo.
Minha resposta veio calma.
Firme.
Era uma bela tarde de verão.
Em um tempo da minha vida em que eu ainda implorava para ser vista e amada.
Mas naquele dia algo parecia diferente.
Passei batom.
Maquiagem.
Vesti uma roupa branca.
E espalhei algo dourado pelas pernas e braços.
Não era um creme comum.
Brilhava como os raios de sol daquela tarde.
Ao passá-lo senti uma força silenciosa invadir o meu coração.
Com a certeza de que eu sou.
Então saí.
Havia muitas pessoas comigo.
Amigos da infância.
Da adolescência.
Da vida adulta.
E meus pais.
Mas uma presença em especial chamou minha atenção.
Meu primeiro namorado.
E como eu já havia sido atravessada por ele.
Mas naquele dia…
não.
Eu não era mais a menina que implorava migalhas.
Que tentava ser escolhida.
Que implorava por respeito e amor.
Eu apenas estava ali.
Sentada em uma grande mesa.
Rodeada de pessoas que amo em diferentes tempos da minha existência.
E, pela primeira vez…
não corri atrás dele.
A lua negra marcava o encontro.
As árvores da floresta à beira do lago lufavam ao vento.
Os lobos uivavam com intensidade.
Como se anunciassem o que iria acontecer.
O som dos tambores começou a invadir o local.
Eu corria em direção às árvores para me proteger.
Não sei ao certo de quê.
Ou de quem.
Percorri o entorno do lago e cheguei até a clareira da floresta.
Lá havia uma fogueira.
Aqueles que um dia chamei de amigos estavam sentados.
Como se esperassem algo acontecer.
Os tambores ficavam mais altos.
Parei diante da fogueira.
Uma força quente invadiu meu peito.
A coragem de não mais fugir.
Então ela surgiu.
Com uma presença fantasmagórica.
Apenas um sussurro do que um dia foi.
Assisti a uma palestra do conhecido Aroldo Dutra Dias.
Ela começou com algo que me fez refletir por longos dias.
Ele contava, com voz mansa e calma:
“Um dia, um homem foi até um posto de gasolina e viu um cachorro chorando.
O incômodo foi tamanho que perguntou ao dono do posto:
— Ele está machucado?
O dono respondeu:
— Não. Ele está deitado em uma tábua com pregos, mas ainda não sentiu dor suficiente para sair.”
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