Entre Textos e Travessias

Blog IDELI

Dédina de Souza e Eduardo Maimoni

Carmo do Rio Claro – 12/08/2026

Algumas perguntas não pedem respostas imediatas. 

Pedem tempo, reflexão  um novo olhar.

Aqui reunimos alguns textos autorais do Instituto IDELI – pensamentos, investigações e reflexões sobre sonhos, escolhas, consciência, relações e aquilo que pode existir por trás daquilo que vivemos.

Escolha uma leitura e continue a investigação.

 

A tarde chuvosa anunciava os respingos de lembranças da alma.

 
Eu e Eduardo.
 
Eduardo e eu.
 
Mais uma vez na ciranda da vida.
 
Juntos.
 
Estávamos no nosso carro. 
 
Eu dirigia por uma estrada de terra.
 
Conhecida antiga dos meus tempos de criança.
 
De onde andei diversas vezes como passageira da felicidade de estar com meu pai. 
 
Passamos o primeiro vilarejo e a parada obrigatória na venda da Dona Nilza.
 
Pudim de roda.
 
Café quente.
 
Pão de queijo do tamanho da palma da mão.
 
Lembranças sobre o amigo dela: papai.
 
Uma lágrima escondida de quem não sabia do falecimento dele.
 
Apenas a percepção de que ele não passava mais havia anos. 
 
Mas o abraço singelo de quem conforta.
 
Entramos no carro.
 
Seguimos.
 
Por algum tempo.
 
Até ver ao longe em meio às montanhas.
 
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Era uma noite escura.
 
Uma névoa densa e negra encobria parte da paisagem.
 
Caminhava pela praça de mãos dadas com Eduardo.
 
Embora aquele fosse um lugar familiar, algo parecia deslocado do contexto.
 
Saímos pela rua lateral.
 
Mesas e cadeiras ocupavam a passagem estranhamente. Pessoas falando alto. Barulho. Desordem.
 
Pedi licença a dois rapazes para passarmos.
 
Foi quando me olharam que percebi que um deles era um antigo relacionamento que tive, uma difícil convivência.
 
Então rapidamente ele me agarrou pelo braço com força.
 
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Era uma grande festa.

Uma linda névoa dourada encobria parte do cenário.

Como uma bruma espelhada reluzindo os raios solares.

As moças usavam vestidos delicados.

Luzes suaves.

Pessoas circulando como se tudo ali precisasse parecer perfeito.

Havia música.

Conversas.

Flores artificiais decorando o ambiente.

Os homens sentados às mesas estavam preocupados em parecer interessantes.

Cultos.

Bem trajados.

Ternos elegantemente cortados.

Mas minha atenção escapava para outras coisas.

As árvores douradas pelos raios do sol.

O vento atravessando o jardim.

A beleza silenciosa das plantas naturais no meio de uma decoração artificial cuidadosamente montada.

Enquanto as pessoas tentavam construir beleza…

a natureza simplesmente era bela.

Continuei caminhando pelo jardim.

Até que um rapaz obstruiu o caminho com uma churrasqueira.

Nossos olhos se cruzaram.

Eu continuei indo na direção de onde ele estava.

Pedi licença.

Ele respondeu:

— Não, moça. Estou trabalhando. Você vai ter que esperar.

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Estranhamente, eu havia voltado para a casa dos meus pais.

Como se algo dentro de mim insistisse em retornar sempre ao mesmo ponto de origem.

Nos sentamos à mesa para jantar.

Como se o tempo nunca tivesse passado.

Como quando éramos crianças.

Mas havia algo no ar.

Uma névoa densa encobria os móveis.

Deformava os contornos da casa.

Tudo parecia distante demais para ser real.

Meus gatos estavam ali.

Mas sem as vísceras.

Uma cena impossível de nomear.

Eu corri até eles.

E, de alguma forma que minha mente ainda não explica…

eu os salvei.

O amor?

Ou a tentativa desesperada de impedir a repetição da dor?

Então eu saí atrás de quem havia feito aquilo.

E era ela.

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Havia uma festa.
 
Em um jardim amplo, às margens do Mar de Minas.
 
Elegante, organizada, com luzes suaves e pessoas circulando como se tudo precisasse manter uma harmonia visível.
 
Mas o que mais chamava minha atenção não estava sobre as mesas.
 
Era o chão.
 
Folhas e galhos caídos repousavam ali, dourados de um jeito que não parecia planejado.
 
Enquanto as pessoas ajustavam flores artificiais e tentavam encaixar uma árvore de Natal em uma festa de debutantes que não parecia pedir por isso, eu me afastava um pouco do centro.
 
Me abaixei.
 
Comecei a recolher os galhos em silêncio.
 
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Era uma tarde ensolarada.

Havia música.

Pessoas conversando.

E adolescentes atravessando a festa com aquela sensação silenciosa de quem ainda está tentando descobrir o próprio lugar no mundo.

Foi então que eu o vi.

O primeiro garoto de quem gostei.

Durante muito tempo ele ocupou um espaço simbólico dentro de mim.

Não exatamente por quem era.

Mas pelo que representava:

o desejo de ser vista.

Escolhida.

Reconhecida.

Mas naquela tarde algo estava diferente.

Ele já não parecia tão bonito.

Ainda assim, ele se aproximou.

Me deu um beijo tímido no rosto.

Quase como se o tempo tentasse recriar uma cena que nunca chegou a acontecer de verdade.

Mas não havia urgência emocional naquela experiência.

Pouco depois alguém perguntou se eu era médica.

Respondi:

“Sou terapeuta.”

E completei quase sem pensar:

“Minha hora é mais valiosa que a de um médico.”

As pessoas ao redor silenciaram.

Algumas pareciam curiosas.

Outras incomodadas.

E naquele instante percebi algo estranho naquelas palavras.

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Havia uma casa antiga.

Daquelas com janelas amplas demais.

Abertas demais.

Como se o mundo sempre tivesse tido permissão para olhar para dentro.

Ela era minha.

Ou pelo menos parecia ser.

Eu me preparava para sair quando percebi dois homens observando pela janela.

Eles começaram a me filmar.

O mais estranho é que o desconforto não veio imediatamente.

Veio depois.

Como se algo tivesse atravessado uma linha que nunca deveria ter sido cruzada.

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Era uma noite escura de inverno.

A lua não aparecia no céu.

A floresta, densa e escura, trazia uma sensação sufocante.

O espaço estreito entre as árvores parecia se fechar cada vez mais.

A gélida sensação de fuga me perseguia.

Não uma presença.

Mas uma necessidade.

Algo me perseguia.

Mas não havia rosto.

Não havia corpo.

Apenas o desamparo.

Encontrei uma abertura entre as pedras da montanha.

O medo invadiu meu peito.

Embora soubesse que talvez aquela fosse a única saída.

Entrei.

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Meu pai conduzia um barco por um rio calmo e transparente.

Pelo caminho, tartarugas marinhas surgiam sob a água cristalina.

E eu me surpreendia ao vê-las ali.

Tão serenas em águas tão tranquilas.

Em determinado momento senti algo tocar meus pés.

Por um instante pensei:

“Será um jacaré?”

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O vento gélido atravessava a sacada do hotel fazenda.

Os animais já se aqueciam sob os primeiros raios solares.

Eu observava a cena com leveza.

Apreciando a paisagem montanhosa iluminada pela manhã.

Dessa vez não era o mar de Minas.

Mas a princesa Poços de Caldas.

Minhas filhas giravam como pequenas estrelas sobre a grama.

Eduardo já queria o café da manhã.

Minha mãe permanecia estranhamente parada à porta.

Saímos os três adultos juntos do quarto.

No instante seguinte estávamos dentro das piscinas de águas vulcânicas.

Como se todo o resto tivesse desaparecido.

Minha mãe estava alegre.

Pela primeira vez em muito tempo.

“No meu aniversário nós vamos vir para cá.”

Uma alegria quase pueril iluminou o semblante dela.

Então ela continuou.

“Vou chamar a sua irmã para passar dois dias conosco.”

Vi em seus olhos algo que reconheci.

A necessidade de testar o vínculo.

Minha resposta veio calma.

Firme.

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Era uma bela tarde de verão.

Em um tempo da minha vida em que eu ainda implorava para ser vista e amada.

Mas naquele dia algo parecia diferente.

Passei batom.

Maquiagem.

Vesti uma roupa branca.

E espalhei algo dourado pelas pernas e braços.

Não era um creme comum.

Brilhava como os raios de sol daquela tarde.

Ao passá-lo senti uma força silenciosa invadir o meu coração.

Com a certeza de que eu sou.

Então saí.

Havia muitas pessoas comigo.

Amigos da infância.

Da adolescência.

Da vida adulta.

E meus pais.

Mas uma presença em especial chamou minha atenção.

Meu primeiro namorado.

E como eu já havia sido atravessada por ele.

Mas naquele dia…

não.

Eu não era mais a menina que implorava migalhas.

Que tentava ser escolhida.

Que implorava por respeito e amor.

Eu apenas estava ali.

Sentada em uma grande mesa.

Rodeada de pessoas que amo em diferentes tempos da minha existência.

E, pela primeira vez…

não corri atrás dele.

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A lua negra marcava o encontro.

As árvores da floresta à beira do lago lufavam ao vento.

Os lobos uivavam com intensidade.

Como se anunciassem o que iria acontecer.

O som dos tambores começou a invadir o local.

Eu corria em direção às árvores para me proteger.

Não sei ao certo de quê.

Ou de quem.

Percorri o entorno do lago e cheguei até a clareira da floresta.

Lá havia uma fogueira.

Aqueles que um dia chamei de amigos estavam sentados.

Como se esperassem algo acontecer.

Os tambores ficavam mais altos.

Parei diante da fogueira.

Uma força quente invadiu meu peito.

A coragem de não mais fugir.

Então ela surgiu.

Com uma presença fantasmagórica.

Apenas um sussurro do que um dia foi.

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Assisti a uma palestra do conhecido Aroldo Dutra Dias.

Ela começou com algo que me fez refletir por longos dias.

Ele contava, com voz mansa e calma:

“Um dia, um homem foi até um posto de gasolina e viu um cachorro chorando.

O incômodo foi tamanho que perguntou ao dono do posto:

— Ele está machucado?

O dono respondeu:

— Não. Ele está deitado em uma tábua com pregos, mas ainda não sentiu dor suficiente para sair.”

 

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